segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Morre lentamente

Morre lentamente 
De: Martha Medeiros

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.


A escritora Martha Medeiros é natural da cidade de Porto Alegre, nasceu no dia 20 de agosto de 1961. Formada em Jornalismo pela PUC do Rio Grande do Sul, trabalhou com propaganda e publicidade, mas largou a profissão e passou a dedicar-se a poesia.

Atualmente, Martha Medeiros é considerada uma das mais importantes escritoras contemporânea.

Martha tem 19 livros publicados, alguns adaptados para o teatro e o cinema; escreve para o jornal Zero Hora de Porto Alegre e para o Jornal O Globo do Rio de Janeiro. Com muita sensibilidade e propriedade, as crônicas, textos e poesias de Martha Medeiros  abordam temas atuais: relacionamentos, amores, família, e todo o universo de sentimentos que norteiam a vida de qualquer ser humano.

2 comentários:

  1. Lindo texto... profundo e nos faz pensar muito em tudo na vida.

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  2. Kasinha da Pandora...
    A vida precisa estar sempre sendo repensada , revista e , se preciso , reorganizada e redirecionada para que se caia numa estagnação , que pode ser imperceptível a curto e médio prazo , porém , bastante acentuada ao longo da vida .
    Beijos .

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Somos donos de nossos atos , mas não donos de nossos sentimentos; Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos; Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos... Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em vôo. (Mario Quintana)

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