segunda-feira, 31 de março de 2014

Psicológico de agir como uma cadela

Psicológico de agir como uma cadela.

Segundo uma definição mais técnica, dogwoman é um jogo D/s que engloba artifícios de S/M. A(o) submissa(o) é tratada(o) como uma cadela(cão): usa coleira, bebe leite em vasilhas e até late. Prazeroso se feito com inteligência e uma dose de sarcasmo. Também é usado em jogos de humilhação. Esse jogo tem muitas variações e é bom conversar com seu(sua) Dom(me)/sub antes de executá-lo. É um jogo de forte apelo psicológico. O apelo é forte para quem não está acostumado a jogos que incidem em humilhação explícita/direta. O lado psicológico está diretamente ligado à humilhação e à prontidão para servir.
A melhor forma de você se adaptar a este jogo é estudando o comportamento de um cachorro (especificamente na fase na qual você quer se encontrar; por exemplo, sou uma cadela de 8 meses, quase entrando na fase adulta), estudar seus hábitos, reações e movimentos. O mais importante é tentá-los reproduzir com dedicação e muito treino, principalmente para subir e descer de determinados lugares e em algumas atitudes. O essencial também é encontrar uma raça e espelhar-se nela… Sou uma labrador desde o primeiro instante pelo meu porte físico e pela agilidade e por ele ser um cachorro dócil e fiel APENAS a um Dono.
O jogo em si consiste em um D/s onde você, a partir do momento que está submetida(o), passa a adquirir as características de uma cadela (ou de um cachorro), seus hábitos e a forma como um adestrador ou dono a(o) trataria. Entre as práticas mais comuns, eu destaco:

- Posicionamento: para andar (somente em 4 apoios), sentar (com as pernas abaixadas e os braços estendidos juntos), deitar (de lado, braços levemente cruzados e pernas sobrepostas), posição de descanso (aquela da esfinge, braços apoiados nos cotovelos, cabeça erguida e ajoelhada, corpo sobre os braços). Para subir em algum lugar: apóie os braços bem juntos e os cotovelos junto ao corpo no lugar que você vai subir, impulsione com as pernas juntas apoiadas nos pés (nas pontas) e apoie-se nos braços apenas. Para descer (apóie-se nas mãos e depois as pernas). O melhor é como eu disse: observar um cão real.

- Quando receber uma ordem, manter a cabeça em posição de atenção, voltada para o Dono, com a vista baixa SEMPRE (mesmo sendo cadela, você é sub).

- Repreensão: quando repreendido, normalmente o cachorro fica amuado e deve ir para a casinha. Combine com seu Dono um local onde possa ser “Tua Casinha” (eu tenho a minha) ou uma almofada… algo do gênero. E, após uma punição, permaneça com a cabeça baixa e o focinho (rosto) entre as mãos, na posição de espera.

- Jogos: Ir pegar a bolinha: esperar o Dono jogá-la e imediatamente ir buscá-la sobre 4 apoios e trazê-la. Procurar Objetos: faça de conta que está farejando enquanto procura algo, etc. Detalhe: quando pegar um objeto com a boca, atente para não colocá-lo demais nela ou não deixar cair. Chicotes, chibatas e coisas longas: tome cuidado ao atravessar portas, porque pode enroscar nos batentes ou você apoiar sobre tiras soltas. Coisas pequenas, como bolinhas, deixe aparecendo sempre, não engula!

- Comer numa terrina: Bem, a princípio torna-se complexo pelo fator psicológico, pela exposição que você passa… Não é todo mundo que se adapta, mas é muito legal a partir do momento que você o pratica. Tente apanhar os alimentos com a boca apenas e sem apoiar o queixo ou deixar escorregar. O ideal é só usar a boca, mas, se precisar, pode se tombar a terrina (de leve) com a mão, como um cachorro faria, batendo a pata. Outra coisa é beber água ou outro líquido (já tive que beber guaraná e foi uma festa, pois as bolinhas de gás param no queixo e ardem um pouco): use APENAS a língua, sem sugar com os lábios; você, devagar e com treino, começa a usar apenas a língua… Para treino, pegue um tupperware com água e apenas lamba a água lentamente… Ou ponha um cubo de gelo e tente pegá-lo com a língua apenas…

- Saltar: Os cães geralmente apóiam-se nas patas traseiras e com elas impulsionam o corpo para frente. Do mesmo modo, apóie-se nas pontas dos pés, encolha suas pernas e com os braços junto ao corpo e flexionados vá lentamente se esticando até dar um impulso (LEVE) e ir para o outro lugar. Detalhe: veja antes se o local é bem firme e que você possa ter onde e como apoiar-se. NUNCA use banquinhos soltos ou cadeiras sem apoio e JAMAIS cadeiras ou móveis de rodinhas (a experiência não deve ser nada boa…) Para começar é legal pôr em frente a um sofá ou cama uma mesinha ou poltrona larga.

- Após o banho: Se teu Dono resolver te dar um “banho” de cadela, mantenha-se de quatro e deixe-o lavar-te e enxugar, afinal cachorros não se enxugam. MAS é fundamental ao menos uma vez dar aquela “chacoalhada” de leve para não ficar excesso de água… Mas, cuidado para não fazer molhadeira!

Fora estas práticas, existem coisas do tipo subir e descer duma cama, pular de um lugar para o outro, que requer treino. Concentração é TUDO no Dogwoman. VOCÊ tem que estar sempre atenta a ordens, pedidos e principalmente estar preparada SEMPRE para qualquer solicitação.
Não dá para prever e escrever tudo por que vai depender do que teu(tua) Dono/Dona vai solicitar… E varia muito do tipo de relação e exposição que você tem em relação a teus limites. Têm Donos que até fazem a gente urinar como uma cadelinha no box do banheiro e têm outros que gostam de nos levar passear.

LEMBRETE: a força de quem pratica o jogo dogwoman concentra-se nos pulsos e tornozelos. Se seus pulsos são mais fracos sugiro o uso de munhequeiras para evitar lesões como, por exemplo, para descer da cama (vc põe todo peso sobre eles). Pelo menos para treino eu uso…

Importante: Os objetos mais comuns à cena são: coleira, terrina, ossinhos de couro sintético, a casinha, guias, etc. As regras de higiene para outros objetos valem aqui também (somos cadelinhas e não porquinhas!!!). Como os ossinhos e bolinhas ficam direto no chão, o ideal é a prática num lugar asseado e lavar a bolinha SEMPRE e os brinquedos em água corrente com sabão neutro. Ossinhos de couro sintético (aqueles que imitam ossos reais) o ideal é colocar magicpack para não ficar com gosto de “couro” na boca. A terrina também não pode ficar com água parada por vários dias porque pode juntar bactérias e limbo e o gosto da água fica desagradável.

Prefiro as guias de adestramento (mais curtas), pois o contato é direto. Conselho: coleiras, sempre aquelas de couro e não muito apertadas (a menos que você curta asfixia). As coleiras mais bonitinhas devem ser encapadas por dentro, pois geralmente são feitas de veludo ou de feltro e, quando você transpira, pode sair a ‘tinta’. As de nylon machucam se muito apertadas, mas são as melhores visualmente. Procure NUNCA exagerar!!! Se, na primeira vez, você não conseguir fazer algum truque, treine mais, mas não force a “barra” logo de cara, querendo saltar objetos… Cuidado sempre!

Fontes:
( http://www.desejosecreto.com.br/fetiches/fetiches04.htm)
(https://masterbdsm.wordpress.com/2009/02/18/orientacao-sobre-o-jogo-dogwoman-vitar/)

sábado, 29 de março de 2014

Eu posso te sentir

Descendo e Subindo o Abismo

Descendo e Subindo o Abismo
Dominação Psicológica: Descendo e Subindo o Abismo
Por Monstrinho
Texto de autoria da Vaca Profana

A Dominação em si acontece quando alguém oferta seu corpo ou sua alma (mente) a vontade de outrem, em detrimento do seu próprio desejo. Nos meus primeiros passos neste vasto universo, aprendi que só se está realmente entregue quando há um vazio, uma sensação de que não há vontade. Naquele momento não lhe ocorre pedir, direcionar ou mesmo desejar que algo aconteça. É pura sensação, é pura reação. Os sons parecem distantes, as perguntas lhe parecem completamente confusas e o pensamento incoerente.

As reais percepções dos caminhos tomados aparecem depois, e até mesmo as reais sensações, é quando as marcas lhe orgulham pois trazem a carga do sucesso de ter conseguido, ter ido além, não por e através de você mas sim pela condução Dele. Neste momento, nesse momento, você é o ser mais vulnerável, você abriu mão de todas as suas defesas. Aquelas que durante a vida, nos percalços, nos “nãos” recebidos e na percepção de julgamentos alheios, você constrói. Aqui soltamos as lágrimas contidas, as palavras nunca ditas, as manifestações reais do seu ser. Ali você é você, impura, imprudente, despudorada e as vezes até agressiva.

E tem alguém ali ao seu lado puxando mais e mais, querendo ver o seu “pior”, tirando você do seu mundo tão bem construído, erguido sob sólidas condições de sobrevivência, pacífico. Alguém que te mostra o outro lado do universo, que te apresenta ao seu atrativo “circo de horrores”. Ali estão as mais diversas figuras, formas, sombras, luzes, cores, sons e odores. O assustador “parque de diversões” com todos os variado perigos atrativos. E Ele te oferece um passaporte vitalício. Mas há condições implícitas nesse tentador convite: você tem que participar de toda a festa, entrar em cada brinquedo e experimentar cada doce. Conflito entre desejo e medo.
Mas a mão que te segura, assegura: estarei ao seu lado todo o tempo, basta segurar forte na minha mão.

Então no alto da montanha russa você percebe que não devia estar li e se vê “morrendo”, “esborrachando no chão” e percebe que Ele sorri. Você o odeia, você vê o monstro. Grita com Ele mas Ele não ouve. Depois da descida o carro para. Você não tem pernas, sua voz não sai, o coração está saindo pela boca, sente frio, ânsias de vomito, frêmitos.
      Ele está ali e te toma pela mão, te abraça, te aquece, fala por ti e para ti. Diz que sua cor está voltando, o quanto está linda e perfeita. O quanto é corajosa. Você começa a sorrir novamente. Pergunta pela próxima viagem. A condução que não lhe permite voltar atrás. O momento que o não vem a mente e a boca diz sim . A certeza de que apesar de tudo você vai voltar.
(VacaProfana)
http://www.ifetiche.com.br/v1/index.php/glossario-perverso/154-dominacao-psicologica-descendo-e-subindo-o-abismo

domingo, 23 de março de 2014

A Humilhação na Cena BDSM

A Humilhação na Cena BDSM
Categoria: Teorias
Criado em Segunda, 16 Janeiro 2012 18:32
Escrito por Monstrinho
com os devidos créditos ao seu criador, #dumuz#_RF, e ao site femdombrasil.com.br

Dominação Psicológica

Quando se fala em sadomasoquismo a primeira idéia que se tem em mente são correntes, algemas, chicotes e botas. O imaginário físico do sadomasoquismo está repleto de símbolos e fetiches, de modo que, nesses tempos de sadomasoquismo de boutique, basta um corpete negro de couro, uma meia arrastão e um bom par de botas para muita Maria Baunilha se sentir a verdadeira Vênus das Peles.

Entretanto, muitos praticantes do bdsm preferem o que denominam sadomasoquismo psicológico, isto é, formas de dominação e submissão que prescindem de violência explícita.

A civilização é resultado da tentativa do ser humano de se afastar da selvageria explícita dos animais, a necessidade intensa de ser essencialmente diferente de outros bichos. A dominação psicológica seria aquele estágio de perversão do próprio objetivo da civilização: apesar de todo nosso protocolo civilizado, ainda somos selvagens e cruéis, como qualquer besta perdida em algum mato por aí.

Usar o refinamento das artimanhas civilizadas para exercer um poder selvagem ou ser objeto dele é um dos inúmeros atos de rebeldia presentes no sadomasoquismo, revestido da capa de conservadorismo dos valores tradicionais, do bem, da família e da tradição.

É claro que, quando alguém se ajoelha nu diante de quem o domina e se submete a uma sessão de chicotadas, também está sendo humilhado, mas, neste texto, para deleite dos que preferem apenas a dominação psicológica, como limite ou como desafio, falaremos da humilhação como instrumento de sadomasoquismo por si mesma, separada da violência explícita.

A Palavra

O ser humano é um ser que fala, a persona loquens, o ser falante. Pela palavra, começa toda a possibilidade de civilização.

“- Eu te mato!” – grita o motorista no trânsito para o colega(?) que acaba de lhe dar uma bela fechada. O grito, em si, tem o potencial de descarregar a ira que, em outros tempos, o levaria a tomar um tacape e realmente desferir um golpe mortal na cabeça do distraído condutor.

Claro que a expressão verbal pode ser melhorada para “Olha por onde anda, filho da puta!”, pois reservamos termos que chamamos gentilmente “de baixo calão” para poder usá-los quando já estamos no limiar da violência animal.

O famoso texto que circula pela internet “O direito ao foda-se” analisa profundamente as implicações e necessidades atendidas por esse vocabulário tão especial que carinhosamente chamamos de “palavrão”.

Para muitos, o começo do masoquismo está na humilhação verbal, na capacidade de suportar ser ofendido pelos palavrões sem reagir. Como nos primeiros minutos em que se conhecem um dominador e uma submissa e ele gentilmente lhe pergunta:

- E desde quando você se tornou uma puta?

Tal como se perguntasse o que comeu no almoço de ontem.

De igual modo, quando numa situação social absolutamente baunilha, uma dominadora dispara em direção ao seu submisso:

- Ora, Alberto, pare de falar asneira, se não fosse minha boa vontade você broxaria sempre…

A capacidade de ouvir e ficar quieto, sem se defender, sem retrucar, é um bom começo. Mas não é tudo.

Nossa cultura judaico-cristã, incrivelmente, cultivou o que um dia Nietzsche chamou de moral do servo. Alguns vêem aí a raiz do masoquismo, como um fenômeno da cultura ocidental. Por outro lado, a moral do servo, que exalta tudo o que é feio, pobre, sujo, indigno e inumano, negando a beleza, o poder, a inteligência, a vontade de ser humanos, acabou por estabelecer um modelo de humildade como virtude, que, digamos assim, atrapalha bastante a dinâmica moral do sadomasoquismo.

O Masoquista Como Vítima

domme2Esse dado foi exposto cruamente por Sade, por meio de Justine. Justine é, em tudo, uma pessoa virtuosa, entretanto, não cessa de ser castigada e novamente castigada, ao longo de todo o desenrolar da trama sádica (ah, que prazer usar o termo em seu sentido apropriado).

O fato é que, quando o submisso ou submissa se detém no aspecto de suportar as ofensas e vexames impostos por quem domina, ainda o faz por uma espécie de orgulho interior, de resto de força moral que ainda lhe sustenta o ego. O pensamento subreptício é mais ou menos assim:

- “Ela me espanca porque é má. Mas eu ainda sou bom, porque eu sou capaz de suportar tudo o que ela me faz e ainda a amar.”

Sim, para surpresa de muitos, a vítima se sente injustiçada, ou seja, há um prazer no masoquista de estar apanhando injustamente e isso tem o caráter redentor para o seu íntimo. Nesse momento da dinâmica masoquista, a pessoa ainda não se deu conta de quem, sente o impulso masoquista e o sublima – embora entre concretamente no ato masoquista – por meio de uma moral do servo: o servo humilde é bom, o Senhor cruel é mal.

“- Eu sou bom, porque eu não machuco ninguém e eu estou justificado moralmente, porque eu sou objeto da injustiça de minha Senhora/meu Senhor.”

Essa verdadeira armadilha é tão ardilosa que, muitas vezes, um relacionamento sadomasoquista acaba sob a acusação de que a Dominadora/Dominador se excedeu para além dos limites, e o/a masoquista procura seus amigos para lhes dizer:

“- Vejam o que ela/ele me fez. Vejam como ela/ele é má/mau.”

Sim! O relacionamento termina numa acusação moral: o sádico é mau. E num outro juízo moral: eu, que fui bom/boa, fui injustiçada. A injustiça que sofri prova que sou bom/boa.

Essa é ainda a lógica da moral do servo. A injustiça sofrida, justifica a bondade do/da masoquista.

É um erro comum na civilização cristã: Jesus era bom e Jesus sofreu, logo, todos os que sofrem são bons. Essa indução nos leva a crer que o sofrimento pode ser causa de justiça ou bondade e há quem se torne masoquista para se sentir bom de novo, após ser devidamente punido. É o caráter redentor do masoquismo.

Nada há de errado nesse sentimento, pois cada um busca o masoquismo para o prazer na forma que se lhe apresenta. Muitos masoquistas, se se observarem atentamente, notarão que após uma cena bem vivida, há uma sensação de limpeza ou mesmo purificação:

“- Ah! Eu precisava disto!”

O erro não está no sentimento, mas no julgamento implícito que faz o masoquista ser bom e o sádico ser mau.

Entretanto, essa acusação e esse julgamento já estavam implícitos na atitude com que o masoquista entrou na cena de humilhação, porque quem se dispõe a suportar as ofensas e vexames que lhe são impostos já estabeleceu um juízo moral sobre essas ofensas e vexames.

A dominação psicológica se estabelece não quando o/a masoquista se dispõe a suportar o que lhe é imposto, mas se submete a viver essas ofensas e vexames. Não se trata mais de uma concessão, mas de uma necessidade.

A Necessidade de ser Masoquista

De que necessita mesmo o masoquista: da dor ou da humilhação?

Dor e humilhação são meios para atingir um fim, que é o prazer masoquista.

Quando o masoquista detém a escalada da humilhação para, por meio dela, julgar-se bom e condenar o sádico, fazendo-se de vítima, não ocorre o prazer, mas a negação de que o prazer venha do masoquismo. Um raciocínio mais ou menos assim:

“- Agora me sinto bem, pois eu pensei que era mau, mas Fulana/Fulano é que é mau, porque ela/ele é cruel, pois foi cruel comigo, eu não sou cruel, fui objeto da crueldade, da injustiça, logo sou uma pessoa boa.”

Como num coito interrompido, a defesa moral se ergue e cria uma capa de satisfação que pode, inclusive, afastar o masoquista por um bom tempo da prática: “- Eu não! Os sádicos são pessoas doentes, más, cruéis…vou ficar longe disso.”

Passa-se o tempo, e esse masoquista começa a notar o que os masoquistas que não fazem ou que suspendem o juízo moral percebem cotidianamente: há uma pulsão sexual pela humilhação e pela dor, ao menos, a dor psicológica.

Os velhos manuais de virtudes ensinavam que a humildade é nada mais que a verdade a respeito de si mesmo. Não ser mais do que se é – o orgulho – e não ser menos do que se é – a modéstia.

Qual a verdade de um masoquista?

Poderíamos começar dizendo de sua impotência diante da vida: o masoquista não pode ser outra coisa. A despeito de tudo o que tentam dizer os psicólogos existencialistas e os manuais de auto-ajuda, de que a pessoa pode superar tudo, o masoquista sabe que é alguém que precisa da dor física e/ou dor psicológica para sentir prazer.

Isso não é uma condenação, isso é o seu modo de ser…

Façamos uma breve analogia…

Imaginem que vivêssemos num pomar onde só existissem laranjeiras e, então, supreendentemente, nascesse uma mangueira. Por mais que a mangueira se esforçasse em produzir laranjas, ela sempre seria anormal, pois tudo o que ela faz é produzir mangas.

Não creio numa base natural para o sadomasoquismo, pois sua raiz natural é a animalidade sexualmente agressiva do ser humano, que todos têm. As formas de expressão sadomasoquista dependem do cenário cultural, mas o desejo e impulso sadomasoquista acontecem de forma diferenciada nas pessoas, pois alguns explicitam sua animalidade sexual agressiva e outros simplesmente a recalcam, ou desviam para outras atividades.

O importante, em nossa discussão, é que ser sádico ou ser masoquista não são condições de avaliação moral, são modos de ser, de expressar a própria sexualidade.

O treinamento psicológico imposto por um Dominador a uma submissa deve acontecer numa relação em que ao gritar-lhe:“- Puta!” – diferentemente de uma mulher baunilha que se excita pelo “palavrão” inesperado, diferentemente da submissa moral que suporta heroicamente a ofensa, a masoquista baixe os olhos e medite sobre a verdade de ser uma puta, talvez mais reles que uma puta, pois a puta, como profissional, sabe o que faz e cobra pelo que faz e ela é apenas uma amadora que tudo faz de graça, talvez até devesse pagar por alguém se importar de lhe dizer a verdade…aos poucos seu sentimento se debruça com a constatação de que nem puta é, que é um grande nada, silencioso e doloroso vazio que espera, ansiosamente, ser definido pelas palavras do Senhor…

Tal é o poder das palavras: elas criam a realidade.

O Poder de Dizer as Coisas.

Um passo fundamental para a dominação psicológica é cassar a palavra do submisso. Pode-se começar pela mordaça, mas para quem gosta de jogos psicológicos intensos, sem nada de físico, o desafio se torna muito interessante.

Tudo o que nos ensinaram foi falar. Temos uma cultura que valoriza apenas as pessoas que têm algo a dizer, ou seja, os formadores de opinião.

Uma sugestão importante para Dominadoras e Dominadores é essa: talvez o submisso tenha algo a falar, talvez até a Dominadora quisesse ouvir, mas o submisso não terá o direito à palavra.

Cassar a palavra talvez seja o equivalente a prender um submisso por uma semana em um canil com mais três ou quatro cães e tratá-lo apenas como mais um. Tudo o que um ser humano é, é uma persona loquens, um ser falante. Obrigado a apenas ouvir e cumprir o que lhe ordenam, o ser humano enlouquece gradualmente.

Saber pedir permissão para falar. Por meio de um gesto ou sinal, de modo que o submisso saiba que a palavra deve ser usada com o devido respeito, pois ela não é mais um direito seu, ele usa o poder de palavra de sua Senhora.

Pois o poder criador das palavras só pode ser usado por quem Domina… quem experimentar a simples regra de pedir permissão para falar verá como é difícil manter a atenção e, mesmo, a relação. Porém, no médio e longo prazo, a dominação psicológica se aprofunda, pois pensamos por meio de palavras, e repentinamente, o submisso perceberá uma espécie de impulso de pedir permissão para pensar.

E que realidades os Dominadores devem criar?

Vejo um uso muito conservador da palavra nas cenas bdsm. O mais freqüente é a palavra de segurança, aquela que se diz para a cena parar.

Proponho o inverso, proponho o uso da palavra devastadora, a criação de uma palavra que, uma vez pronunciada por quem Domina, desencadeie todo o processo de submissão no masoquista, independente de onde ele esteja.

Como exemplo, sabemos que o ser humano é particularmente sensível a críticas ao seu corpo. Criar vergonha sobre alguma parte do corpo é uma das estratégias mais simples de continuamente humilhar alguém. Além disso, a vergonha sobre o corpo pode levar a compulsões e obsessões infindas. Assim, numa conversa casual, a Dominadora pode mencionar: “ Sabe, notei que teu saco cheira a meia suja”. Da primeira vez, não dizer mais nada, apenas despertar a atenção e curiosidade do submisso sobre o tema. De tempos em tempos, reforçar o comentário. Se ele retrucar, proibir que retruque, pois é verdade. Consolidada a crença, estabelecer a palavra:, “ – De agora em diante, quando eu lhe disser meia suja, você vai parar o que estiver fazendo, sair e lavar esse saco nojento.”

A princípio, desencadear a ordem dentro das cenas, mas então, um dia, enviar o seguinte torpedo ao celular dele: “MEIA SUJA”. Dependendo do potencial obsessivo-compulsivo do submisso, a reação poderá ir de um ligeiro mal-estar a uma desabalada carreira ao banheiro…de qualquer forma, a palavra cria uma nova reação…

O poder de não dizer as coisas.

Os dominadores podem trilhar o caminho fácil do uso da palavra, mas há outra possibilidade que pode ser bem mais cruel: obrigar o submisso a falar continuamente.

Fato é que falamos antes de tudo para ocultar-nos. Como diz o antigo provérbio: “Como vai é saudação, não é para falar da má digestão.”

Quanto mais a pessoa é obrigada a falar, mais ela tem que se expor. Quanto mais exposta, mais vulnerável e daí se amplia a dominação.

No fundo, todo ser humano é ridículo, pois o que temos de não-ridículo é exatamente a capacidade de ocultar nosso ridículo. E, nesse particular, a violência física não ajuda. Sob violência física o submisso admite qualquer coisa. Depois da centésima chicotada qualquer um admite que é Bin Laden , por exemplo (menos o próprio, é claro).

Dois sofás confortáveis, uma câmera de vídeo, a luz sobre o submisso e a ordem:

“-Fale-me de você.”

Pequenos cortes, dirigindo para aquilo que se quer esconder, perguntas constragedoras, confissões e, principalmente, a posse da fita. Uma fita com uma pessoa nua, sendo estuprada por um avestruz vale bem menos que a calma cena de uma conversa na sala, onde o submisso foi obrigado a confessar que se masturbava com a prova de Geometria nas mãos para se lembrar dos gritos da professora: “- Burro! Burro! Burro!”. São coisas que o hoje bem sucedido CIO de multinacional não gostaria de ver expostas…

Um dos casos mais extremos dessa técnica aconteceu, justamente, na literatura brasileira, naquele que é um dos maiores cornos de toda a história, o Bentinho, ou, se preferem, o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Permitam-me, por um momento, tal digressão literária…

Devidamente humilhado por sua esterilidade e pela piedosa traição de Capitu, que ao conceber um filho de Escobar consegue ocultar da sociedade a esterilidade do marido (sei que os exegetas de Machado vão me xingar por essa hermenêutica, mas se Capitu engravidou apenas uma vez é porque, da parte dela, a traição tinha objetivos claros), Bentinho, em vez de calar-se, o que seria uma atitude de respeito para consigo mesmo, seu filho e sua esposa, além dos amigos (lembrem-se do capítulo de desculpas a Dona Sancha, mulher de Escobar), põe-se, não só a falar, mas a escrever.

O resultado, para quem leu, é evidente.O domínio de Capitu sobre Bentinho se escancara a cada página e, por mais que Bentinho testemunhe contra ela, a acuse e queira nos convencer que ela era apenas a traiçoeira portadora de “olhos de cigana dissimulada”, tudo o que ele consegue é nos convencer do quão ridículo ele é, em seu rancor, em sua ira de corno manso e literato.

Sem mover uma palha em sua própria defesa ao longo de todo o romance, já que Bentinho é o todo-poderoso autor, Capitu domina a cena, Bentinho e a nós leitores. A posse da palavra foi completamente inútil a Bentinho e é isso que uma plena dominação psicológica busca: eu lhe dou a vantagem de falar, mas nem assim você cria ou domina alguma coisa. Tudo o que você pode criar é uma imagem ridícula de si mesmo. No caso de Bentinho, a confissão de que é corno e estéril. Como sentenciaria outro personagem do romance: “Corníssimo!”

Em Síntese

O submisso deve ser levado ao ponto de ser capaz de dizer como verdade as descrições de si mesmo que darão prazer a quem o domina.

A quem domina cabe chegar ao ponto de, com sua presença, já humilhar o masoquista. Transformar seu próprio corpo, sua própria imagem em signo dessa humilhação.

Como? A dominadora, o dominador, transformados em objetos?

Sim, pois tal é o estado de dependência da dor e da humilhação do masoquista, em seu modo de ser, que desconhece qualquer noção de sujeito: tudo é para ele um objeto, até o si mesmo. Então, que seja a dominadora, o dominador, o objeto que denuncia e provoca esse estado de humilhação no submisso.

O domínio sobre a expressão do submisso sobre seu estado deve ser a fonte de prazer do sádico, pois a única coisa que o masoquista expressa é, essencialmente, dor, seja ela psicológica ou física.

Por essa limitação extrema das condições de expressão do masoquista é que o sádico se sente mais à vontade quando pode romper o tabu monogâmico, precisando de vários tipos de submissões para se satisfazer.

Mas isso já é tema para outro artigo
http://www.ifetiche.com.br/v1/index.php/artigos/81-teorias/85-teoria-humilhacao

sexta-feira, 21 de março de 2014

Aquela frágil, indefesa e insegura rosa não existe mais
Criou espinhos e dobrou de tamanho
A vida que fez isso ou aquele cravo que brigou com ela?
A rosa de vidro cortante, ainda tem aquela mesma delicadeza...
Ainda sonha, ainda espera, ainda se apaixona sem fundamentos...
E se entrega e esconde seus espinhos
Porque apesar de ser de vidro, tem algo pulsando muito vivo dentro dela...
Uma esperança incansável de ser eternamente alegre...
Uma certeza de que deve deixar ás pessoas algo memorável
Um vontade louca de ser inconsequentemente jovem...
E uma intensa e apaixonante ideia de ser inquebrável...
(Lara Bottas)
Loucura é odiar todas as rosas porque um espinho te feriu...
É desistir de todos os esforços porque um deles fracassou...
É condenar todas as amizades porque uma delas te traiu...
É não crer mais no amor porque um deles te decepcionou...
É jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma falhou .
Lembre-se : sempre há outra chance , outra amizade, outro amor . 
Mas nunca outra vida... 
Seja feliz hoje! Porque o hoje é um presente e o amanhã uma incerteza .
(Desconheço a autoria)
Somos donos de nossos atos , mas não donos de nossos sentimentos; Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos; Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos... Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em vôo. (Mario Quintana)

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